Vou instalar uma porta de cofre de banco no quarto dos fundos, colocar uma senha qualquer sem relação alguma com nada que eu possa lembrar e trancafiar lá dentro o que quero esconder, tudo o que eu quero me livrar.

O primeiro ser trancafiado seria ele, que não aceita ordem de despejo do lugar ocupado no meu coração, fica reaparecendo sem ser chamado! Joga ele lá, pronto. Duvido que escape dessa vez e venha pelos atalhos do meu cérebro até o córtex frontal, afinal, eu disse que ia colocar uma porta de cofre de banco, daquelas gigantes, certo? Pois é.

Também iriam pra lá, juntamente com ele, várias coisas que já estão me atrasando a vida há séculos: minha rinite alérgica, alguns de meus vícios, toda a minha preguiça. Minha falta de memória, minha tristeza com coisas que eu não posso mudar, minhas neuras por nada, meus cadernos velhos cheios de poemas bregas (não que eles me atrapalhem, só são infantilmente valiosos). Tudo isso e mais um pouco.

Não seria só um quarto dos fundos de segurança máxima com um amor platônico e tralhas presas nele… teria mais alguns fantasmas lá dentro, de pessoas que me emputeceram tremendamente e que mereciam um tempo de quarentena. Que iriam entrar, e um dia, sair. Isso já aconteceu antes, não no “projeto” quarto dos fundos, mas no outro lugar metafórico pra qual mandei pessoas, e agora o tempo passou e elas saíram de lá, saíram de mim pra sempre.

No fim, o quarto dos fundos com porta de cofre de banco é um “projeto paralelo provisório”. Não vai durar pra sempre, só o tempo que for necessário pra o que estiver lá poder sair, pra sempre, pra longe.